Entrevista com o reitor Wilmar Marçal

29 06 2008

Na semana passada eu mandei uma pergunta pro Jornal de Londrina com uma pergunta para o reitor e eles acabaram me convidando para participar da entrevista. Foram 2 horas de conversa que foram editadas para o espaço do jornal. A minha primeira pergunta, na íntegra, foi:

“Há mais ou menos 11 anos atrás, surgia a idéia de fazer de Londrina um grande centro de tecnologia no Brasil ou, nas palavras da época, de tornar Londrina o Vale do Silício Brasileiro. Com a intenção de fornecer mão-de-obra especializada e também com a intenção de fomentar a abertura de empresas de tecnologia do Brasil, entrou em atividade no ano de 1997 o curso de Engenharia Elétrica da UEL. Hoje, 11 anos depois, o curso carece de investimentos, a grande maioria dos formandos vão trabalhar fora de Londrina e, durante o curso, não há um estímulo dos professores para que os alunos desenvolvam o empreendedorismo, qualidade indispensável para que novas empresas sejam criadas na cidade. Gostaria de saber como o reitor avalia esse atual posicionamento do curso de Eng. Elétrica da UEL, tão afastado de seus objetivos iniciais, e o que isso pode implicar no desenvolvimento tecnológico da cidade.”

Além disso ainda perguntei mais 2 ou 3 perguntas que não foram publicadas.
Foi uma oportunidade interessante e que deu pra conversar um pouco sobre o nosso curso. Gostaria de ter sabido antes que eu ia lá pra poder levar perguntas de mais pessoas do curso, porém eu fui convidado 1 hora e meia antes da entrevista então não deu pra agilizar isso.

Leia, a seguir, a entrevista como ela foi publicada hoje no Jornal de Londrina:

Luiz Henrique – Como docente, noto que há falta de motivação por parte dos docentes e funcionários, além da questão salarial, por falta de estrutura. O que o senhor pode fazer?

A universidade está sucateada? Está. Precisa de uma verba maior de custeio? Precisa. Tudo isso é muito interessante, mas eu volto a insistir: se não houver uma política salarial decente, não adianta motivação. O professor universitário ganha mal, infelizmente. Nós estamos aguardando um reajuste do governo de 5%, depois mais 22%, que ainda vai à Assembléia Legislativa. Do ponto de vista de como melhorar a infraestrutura e a questão de equipamentos e custeio, a única alternativa para nós é a pós-graduação. Hoje os cursos latu-sensu, que são os de especialização, e são cursos pagos, podem nos dar um socorro. Um ponto extremamente importante seria destinar uma parcela do ICMS para as instituições de ensino superior. O prognóstico é que, se não tivermos adequação orçamentária, tenho receio de que, em menos de uma década, as universidades públicas, de um modo geral, se tornem grandes colégios públicos.

Mateus Rabello – O curso de Engenharia Elétrica foi criado em 1997, numa época em que a cidade discutia o Londrina Tecnópolis. Por ano se formam 25 alunos e a maioria vai trabalhar em São Paulo e Curitiba. Como o senhor vê essa questão?

O curso de Engenharia Elétrica perdeu sete doutores nos últimos anos devido à questão salarial, e essa debandada me preocupa como gestor. Para realinhar isso, tenho duas propostas. Primeiro, acho que o aluno tem que interagir mais com a cidade. Quem faz a orientação vocacional dentro do curso é o estágio. Londrina está acordando para a questão tecnológica. Tínhamos a chamada Intuel, uma incubadora tecnológica dentro da UEL, mas que foi se perdendo com o passar do tempo. Chamei o empreendedor que havia doado o prédio [Atsushi Yoshii] e pedi que ele deixasse a universidade cuidar da incubadora, porque a estrutura administrativa não estava boa. Há dois meses criamos a Agência de Inovação Tecnológica, que vai fazer com que a gente tenha interação com o Parque Tecnológico Francisco Sciarra, vamos ter nossas incubadoras funcionando lá dentro, preservando a originalidade e o reconhecimento de quem faz.

Glauco Borba – O campus da UEL é um dos locais em Londrina com maior fluxo de pessoas. Gostaria de saber se há algum projeto para melhorar o acesso de quem vai de bicicleta para a UEL.

Existe um plano viário na administração que prevê que a universidade tenha ao seu redor um círculo, uma pista, para que a pessoa se desloque sem passar pelo centro do campus. Na questão mais pontual, já fizemos 2 mil metros de calçadas, porque em muitos locais as pessoas andavam na rua, e vamos fazer mais calçadas, o que contempla também os cadeirantes. Na questão da bicicleta, esse plano viário vai ajudar. Temos outra questão que é o ponto em que o poder público municipal tem que socorrer. Por exemplo, a [avenida] Castelo Branco está até hoje sem duplicar, meus funcionários andam pela calçada sem pavimentação, não tem segurança para as bicicletas circularem. Se pudermos ter integração com poder público municipal, poderemos ter uma circulação mais tranqüila para bicicletas.

Luiz Henrique – Temos um problema de falta de pessoal e a mesma professora que pesquisa, dá aula, faz orientação e tem que atender ao telefone, porque não temos uma secretária. Qual é a meta para a pós-graduação?

A questão de funcionário é crônica, tenho 1.043 vagas em aberto, entre professores e técnico-administrativos, criadas, mas não autorizadas. Não é uma crítica ao governo, mas o Estado é moroso nessa questão de contratação. Têm processos que demoram até um ano e três meses para a pessoa assumir. Não é só a pós que não tem secretária, tem departamento que não tem secretária. O que temos feito é processo seletivo de ascensão dos servidores, que vai dar um quadro de quem pode ter ascensão e quem não pode e quais as vagas que vamos abrir para concurso. Hoje, não podemos abrir mais nenhum curso de graduação, eu queria abrir Nutrição, mas não tem como abrir. Qualquer curso de pós-graduação que fizermos, vamos ter que contar com a colaboração dos servidores e professores. A universidade expandiu demais a pós, o que é natural, mas não houve crescimento de número de professores para dar fomento. Quem autoriza vagas é o Estado, o reitor não tem essa autonomia.

Paulo Nishitani – Qual a sua posição em relação às cotas do vestibular?

Eu ainda acho que precisamos atender a questão dos pobres, não acho que deva existir rótulo de negro ou de branco. Se tem que ter cotas, podemos usar mecanismos como o imposto de renda dos pais dos vestibulando. Para mim só há uma raça, que é a raça humana. E dá muito trabalho para nós a questão das cotas na hora de avaliar, em pessoas que se declaram negras, mas você vai ver e a pessoa não é negra, declara que tem descendentes afro, dá muito trabalho administrativamente. A universidade precisa ter estatísticas nesses anos todos e levar isso para seu conselho. Sou favorável para as pessoas de baixa renda, porque nem sempre a pessoa de cor é pobre.

Luiz Henrique – Vou colocar um tema polêmico a pedido dos alunos, que é o assunto da sede do DCE [Diretório Central dos Estudantes]. Se na eleição para reitor o voto dos alunos corresponde a 33%, assim como docentes e servidores, por que na questão do DCE o senhor ‘barrou’ o diálogo com os alunos? Não houve democracia, na visão dos alunos.

A questão tem duas etapas. Qualquer gestor público que detecte irregularidade tem como dever de ofício corrigir isso, sob pena de ser processado. O DCE locou um prédio público para terceiros, e não podia fazer isso. Isso está comprovado nos autos, se o reitor não tomasse uma medida de reintegração de posse, qualquer um de vocês poderia me processar por omissão. Posteriormente chamei três alunos para conversar e disse que o imóvel perdeu a finalidade de DCE, estava sendo usado para festas, e que não pode haver duas sedes, e já existe uma sede muito bem montada no campus. Precisava desafogar uma fila de 200 crianças no Colégio de Aplicação [que fica ao lado da sede do DCE do centro] e precisava de espaço para sala de aula. Estamos dialogando e foi criada uma comissão no Conselho de Administração. Há proposta de fazer daquele local um museu. Agora, precisa ficar dito que a administração não é contra os alunos explorarem o DCE, podem explorar com cantinas, xerox, mas eles têm que tocar o negócio. Para finalizar gostaria de dizer que o DCE tem que recuperar sua ética, porque o espaço está sendo usado com finalidade que não atende à questão estudantil, atende a interesses particulares de um pequeno grupo que faz muito barulho. O DCE tem linha política, mas a representação estudantil não é mais só a do DCE, temos os centros acadêmicos, as 11 empresas júnior, a atlética, com 300 atletas. Criamos o Canal do Estudante, um elo de ligação com o aluno, mas não de assistencialismo, para angariar fundos com empresários da cidade para dar sustentabilidade e mandar os alunos para um congresso.

Mateus Rabello – Acho que pensar só no salário como forma de motivar professores é um pouco cômodo, acho que a universidade poderia puxar mais os alunos para si e motivar não só a comunidade, mas a sociedade, com outras ações.

Essa é uma visão empreendedora. Esse trabalho de conversa a corpo-a-corpo é feito constantemente nos centros pelos pró-reitores. Dois meses atrás lançamos a campanha Adote uma Sala/Adote um Laboratório, está no site. Pouquíssimos empresários querem colaborar. Nosso plano é pegar um grupo de empresários e pedir para que eles reformem um dos banheiros. Vamos trazer egressos e empresários para investir na universidade.

Jorge Ribeiro (enviada por e-mail) – Gostaria de saber se o reitor pode ajudar os alunos dos cursos de Engenharia Civil e de outras áreas a viabilizar intercâmbios internacionais. A Assessoria de Relações Internacionais (ARI) da UEL nada consegue fazer pelos alunos que a procuram, e os estudantes acabam sendo privados de uma visão internacional.

Antes acontecia que o aluno passava pela ARI, pela Pro Reitoria de Planejamento, onde ficavam os convênios para os estudantes buscarem estágio no Brasil e no exterior, e tinha a Pro Reitoria de Graduação, onde os alunos têm que se regularizar. Não estava bom, o aluno tinha que passar por um triângulo e era inoperante. Pegamos tudo isso e em 2006 criamos a Central de Estágio dentro da Pro Grad, que funciona para o aluno que busca estágio e intercâmbio dentro e fora do Brasil. A primeira sugestão para o aluno é buscar a Central de estágio e, segundo, ele tem que saber qual é a universidade em que ele quer estagiar. A identificação do aluno com o estágio começa no terceiro ano, e isso precisa mudar. Os alunos do primeiro ano chegam de forma audaciosa e irreverente, mas eles não têm um norte. Meu perfil de aluno [para iniciação científica] é: não gosto de aluno maconheiro, não gosto de aluno que usa piercing, não tenho intolerância religiosa, mas a pessoa tem que ter boa apresentação. Não posso mandar um porra-louca no congresso para representar a universidade.

Fonte: Jornal de Londrina


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9 responses

29 06 2008
Caio Henrique

Caraca Mateus, mandou muito bem rapaz !!! Parabéns por essa sua iniciativa e por ter conseguido ficar “frente a frente” com o reitor. E só por curiosidade, você não teria alguma anotação do que não fora publicado no JL ??

Mais um vez, parabéns…

Abraço !

29 06 2008
Santana

Parabéns Mateus,
ótima iniciativa!

29 06 2008
fffalleiros

Regaçou fiote!

Me conta em off no email o que rolou a mais! =)

Abraços

29 06 2008
Bertozzi

Velho, genial!!!
Parabéns Mateus!!! Vlw pela iniciativa!!!

30 06 2008
Kiko

C mandou bem d +++ ,duas das8 perguntas publicadas foram suaa

vlw

3 07 2008
Hugo

Quem usa piercing é porra-louca? Que silogismo interessante esse do Sr. Reitor Dr. Wilmar… 100% de tolerancia e respeito à diversidade cultural.

Mas ae, mandou bem na pergunta, Mateus.

10 07 2008
Silvia Chiezi

Mais uma vez mandou bem e mosrtou que qualquer um de nós pode fazer sua parte ao invés de ficar só na reclamação…
Parabéns! Ja tinha falado né? hehehe

Bju bju!

18 07 2008
4 08 2008
Adilson F

Grande Mateus, ótimo trabalho.
Muito boas as suas perguntas.

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