Por que é que a gente é assim?

1 06 2009

É na Escola de Engenharia que começa a ser destruída a nossa auto-estima. É na Escola de Engenharia que começa a ser forjado o nosso comportamento autodestrutivo, nosso desprezo pelos valores da própria profissão, nosso desgosto com a nossa própria atividade profissional. É na Escola de Engenharia que nasce a nossa falta de coragem empresarial e essa submissão inaceitável aos caprichos dos clientes.

Engenheiros, Médicos, Arquitetos, Advogados, Agrônomos, Dentistas…

Uma coisa leva à outra: toda vez que, numa conversa qualquer, o assunto “comportamento no mercado” vem à tona acabamos caindo nas inevitáveis comparações de engenheiros, arquitetos e agrônomos com médicos, dentistas e advogados…

Quando me perguntam o que eu acho disso (dessa comparação de profissionais tão diferentes) respondo sempre a mesma coisa: acho que essa comparação é JUSTÍSSIMA.

Se eu, engenheiro, por qualquer motivo, tiver de ser comparado com outros profissionais, acho muito justo que seja com médicos, com dentistas ou com advogados. Afinal temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Somos todos prestadores de serviços. Nosso produto (nosso serviço) é altamente especializado e todas essas atividades demandam profissionais com capacidade intelectual diferenciada. Ninguém chega a ser médico, advogado, dentista, agrônomo, arquiteto ou engenheiro apenas por ter um belo par de olhos, uma voz doce, algum dinheiro no banco ou um padrinho influente… A conquista de qualquer um desses títulos demanda qualidades e habilidades especiais, muito estudo e empenho (às vezes até muitos sacrifícios).

Temos, é verdade, muitas semelhanças, quando a comparação é feita no nível da qualificação. Porém, no exercício das profissões e no comportamento empresarial de cada grupo as diferenças aparecem e são enormes. Neste texto concentramos nossas reflexões sobre a formação dos profissionais de Engenharia. No entanto, nossa experiência e a convivência com milhares de arquitetos e agrônomos dos mais distantes lugares do Brasil nos permitem acreditar que os conceitos podem se estender sem problemas também para esses profissionais. Voltemos no tempo.

Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que hoje é um engenheiro) tinha seus quinze, dezesseis anos, um ou dois anos antes do vestibular. Esse moço ou essa moça é, muito provavelmente, um dos melhores alunos da sua sala (talvez da escola). É um expoente estudantil, requisitado pelos colegas, elogiado pelos professores, respeitado pelos pais (de quem é motivo de muito orgulho) valorizado pelos parentes, pelos vizinhos, admirado pelas garotas (ou garotos).

Comparemos nosso amiguinho com o estudante de quinze ou dezesseis anos que virá a ser médico, dentista ou advogado.

Veremos quase nenhuma diferença.

É isso mesmo. Na origem, são todos iguais. Têm o mesmo perfil, a mesma história, o mesmo rendimento. Todos são brilhantes e bem sucedidos.

Vem o vestibular. Ingressa, cada qual, na faculdade que escolheu… E é aí que as diferenças começam a aparecer. Os estudantes de medicina e de odontologia são enquadrados em um ambiente novo, com pessoas que se vestem de uma maneira diferente, se comportam de uma maneira diferente e que estabelecem uma identidade visual (e, por decorrência, uma identidade psicológica) com a atividade profissional que irão exercer alguns anos depois.

Os estudantes de direito, já nos primeiros meses de escola convivem com professores que vêm para as aulas de terno, gravata, sapato social, barba feita ou bem cuidada. E o mais interessante: aqueles senhores e senhoras respeitáveis, bem vestidos e de fina educação (os professores), tratam os seus alunos por “senhor” ou “senhora”, com toda a fineza e educação que a prática profissional recomenda. E estimulam seus alunos a acreditar e se convencerem de que são superiores. Que estão se preparando para “falar com o Estado” (privilégio que não é concedido a nenhum outro profissional…). Enfim, aprendem que precisam respeitar os outros, mas aprendem, antes de tudo, que precisam exigir respeito para si.

Nos últimos anos de faculdade, estudantes de odontologia e medicina já se vestem como se médicos ou dentistas fossem. Freqüentam clínicas e atuam como profissionais na área da saúde. Assumem, enfim, um ou dois anos antes de terminada a faculdade, todo um comportamento típico de médico. De dentista.

Os estudantes de Direito, por sua vez, a partir da Segunda metade do curso, já se vestem como advogados (roupa social, sapato, eventualmente gravata e um terno ou blazer…). Mantém com os seus professores e com os seus colegas um comportamento e um vocabulário apropriados para as lides jurídicas. E, o mais importante: são tratados, pelos seus professores, como Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório até a próxima aula. Dr. Sicrano, esteja preparado para a prova final, na sexta-feira.). Apesar de ainda não terem concluído o curso.

Os estudantes de engenharia, ao contrário, a partir do início do curso, a única diferença que eles conseguem perceber na faculdade, em relação ao ensino médio é o grau de dificuldade (que simplesmente quintuplica!).

Não existe nenhum estímulo a um comportamento novo, nenhuma referência, um exemplo positivo de comportamento.
Nenhuma motivação para um desenvolvimento psicológico alternativo. Nenhum elemento que interfira na formação do profissional do ponto de vista da sua imagem física composta de aspectos visuais e comportamentais. A vida social, no ambiente da faculdade, é muito restrita, quando não inexistente.

Além do mais, a faculdade entra na vida desses jovens como um elemento de ruptura. Os alunos são colocados em uma condição a que eles não estavam acostumados. Estavam acostumados a tirar notas máximas com a maior facilidade e, de repente, passam a sofrer e ter grandes dificuldades para obter notas mínimas ou médias. Deixam de ser respeitados pelos seus professores que se tornam distantes e autoritários e perdem a admiração dos colegas que estão todos desesperados tentando se salvar de uma coisa que ainda não estão entendendo direito.

Não que as faculdades de medicina, direito ou odontologia sejam fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm compensações psicológicas que os estudantes de engenharia não têm. Essas faculdades, por diversos mecanismos, inexistentes nas escolas de engenharia, dão continuidade ao amadurecimento psicológico e social do futuro profissional. E, com isto, mantêm em alta a motivação e auto-estima dos seus estudantes.

Na engenharia não existe nenhum processo de acompanhamento psicológico para aquele estudante desesperado que teve a sua carreira de sucesso estudantil subitamente interrompida (mesmo os alunos que continuam conquistando notas altas, acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas, do respeito dos professores e da admiração coletiva). E não existe ninguém para explicar o que está acontecendo. Ninguém para dizer a este estudante que ele não é tão inepto ou incapaz como, algumas vezes os professores parecem querer provar.

É quase geral, por parte dos professores, nas escolas de engenharia, a manifestação desnecessária de superioridade intelectual, o exercício gratuito de poder e o terrorismo psicológico.

E o estudante, que entrou na faculdade no auge positivo da auto-estima, vai recebendo, ao longo de cinco anos, das mais variadas formas, uma única mensagem: “Você não é tão bom quanto você pensava que fosse !”.

Ao contrário dos estudantes de direito, medicina ou odontologia, que têm como professores, profissionais que atuam no dia-a-dia de suas atividades, os estudantes de engenharia passam cinco anos submetidos aos rigores (e, em alguns casos, caprichos) de engenheiros que não atuam, profissionalmente, como engenheiros e sim como professores, e que, portanto, não têm a vivência da atividade profissional e não têm a ciência ou a consciência das relações comerciais que vão definir o sucesso ou o fracasso dos profissionais que eles estão formando.

Como resultado disso, ao final de cinco anos, o estudante de engenharia se transforma em um engenheiro. E este engenheiro é completamente desprovido de auto-estima, de respeito próprio, de prazer profissional ou de consciência de mercado. Na metade do último semestre da faculdade, dois meses antes de receber o diploma e ser entregue aos leões do mercado, o estudante de engenharia ainda é tratado como mero es-tu-dan-te.

Em momento algum, durante a faculdade, o estudante de engenharia é tratado como engenheiro, em momento algum, durante esses cinco anos, a escola propicia a percepção da mudança de condição de estudante para a condição de profissional.

Estudantes de direito, medicina e odontologia, ao contrário, muito antes do fim da faculdade já têm uma noção razoavelmente clara das dificuldades do exercício profissional que eles irão enfrentar. Com isso vão desenvolvendo mecanismos psicológicos de defesa e saem da faculdade com maior grau de segurança. Entram no mercado profissional de cabeça erguida, com uma consciência de valor. E com todo o processo de construção da imagem profissional em andamento. Estudantes de engenharia não são estimulados a se vestir bem, nem a ter preocupações com técnicas de comunicação ou relacionamento social ou de exercício intelectual não linear. Com isso acabam não desenvolvendo habilidades gerenciais ou de relacionamento com o mercado.

Esta é uma das razões pelas quais as organizações de engenharia são, quase sempre, extremamente burocráticas e conservadoras.

Engenheiros (ao contrário de advogados, médicos e dentistas) não comandam seu ambiente de trabalho. Por mais que detenham o conhecimento e a técnica, os engenheiros são, via de regra, pouco influentes em relação ao produto final, seja uma construção, uma instalação, um empreendimento complexo ou um processo produtivo.

O mais lamentável é que os engenheiros, via de regra, só vão perceber os resultados da negligência com a imagem física, a comunicação não-verbal e o comportamento no mercado, depois de já terem acumulado muitas perdas desnecessárias (algumas das quais, infelizmente, irreversíveis).

E qual é a utilidade desse discurso? Qual a importância de se colocar este tema no papel? Porque tornar pública esta opinião, que, com certeza aborrecerá alguns segmentos? Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que a simples leitura deste ensaio leve um diretor de escola de engenharia, um professor, um estudante ou um profissional de engenharia a alterar o seu comportamento. O que se espera é que essas pessoas, a quem o texto é dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude tenha como objetivo dar um futuro melhor para a engenharia no Brasil.

A engenharia depende dos engenheiros. E os engenheiros começam a ser formados aos quinze ou dezesseis anos, ainda no ensino médio.

Eu ainda acho, como sempre achei, que o conhecimento científico que é transmitido aos estudantes durante a faculdade de engenharia é fundamental. E que o valor da engenharia está sustentado na capacidade intelectual e técnica dos seus profissionais.

No entanto, vejo como importantíssima uma nova visão, nesse processo de formação do engenheiro, que leve em consideração todo o relacionamento social dos estudantes entre si e com os seus professores. É importante que, aos estudantes, seja transmitida uma visão mais clara das relações comerciais que eles enfrentarão na vida profissional, seja na condição de profissionais autônomos, empresários ou empregados em alguma empresa.

Em qualquer um desses casos as relações sociais são elementos definitivos para o sucesso. É um “detalhe” que faz toda a diferença.

O estudante chega ao curso de Engenharia cheio de sonhos com a auto-estima elevada, transpirando confiança e auto-respeito. É muito triste que, dez ou quinze anos depois esse potencial tenha se transformado em um sujeito cabisbaixo, sem consciência de valor, destituído de auto-estima e respeito próprio. Abrindo mão da sua natural vocação de agente do desenvolvimento para ser mero instrumento de trabalho para terceiros.

Na Escola de Engenharia o engenheiro precisa ser “construído” para ser um vencedor. Precisa ser estimulado a acreditar no seu potencial. Confiar na sua inteligência. E, acima de tudo, precisa aprender a importância de manter a cabeça erguida.


O texto acima foi escrito pelo engenheiro Ênio Padilha e foi postado na comunidade da Elétrica há algum tempo atrás. Eu achei fantástico. Concordo com cada palavra e reconheci o curso que frequento em cada parágrafo. Muito do que o Ênio fala eu já falei e já escrevi ao longo desses anos e fico até com uma ponta de inveja de não ter conseguido reunir tudo em um texto só como esse.

Eu sinto que o ensino no nosso país está a um passo de uma revolução. A maioria das universidades públicas já não conseguem acompanhar a evolução do mundo, principalmente um curso de tecnologia como o nosso. Hoje não há mais espaço para organizações burocráticas e lentas como as universidades públicas. No cenário atual, uma organização que leva 3 anos pra entregar um equipamento de tecnologia solicitado será engolida sem piedade por organizações privadas muito mais dinâmicas, muito mais organizadas, muito mais focadas e muito mais precupadas com resultados.  A popularização do ensino à distância vai permitir que estudemos em nossas casas com os melhores professores do país e do mundo. Só sobrarão as melhores. Duvida? Então pergunte aos seus pais em qual escola eles estudaram quando eram novos. Em uma escola pública. E elas eram, de fato, as melhores. Hoje, um pai que quer garantir Educação de qualidade aos seus filhos tem que desembolsar pelo menos R$ 400,00/mês em uma escola particular. Com as universidades vai acontecer a mesma coisa.  É triste dizer, mas a nossa geração vai pagar universidade particular para os seus filhos porque simplesmente universidades públicas já não serão mais as melhores.

O mundo mudou e a educação pública ficou parada lá atrás. A máquina pública brasileira não é competitiva. Já dá pra ver mudanças em alguns governos e em algumas escolas, mas ainda são muito pontuais. Uma escola de Engenharia que começar a trabalhar esses pontos aí de cima hoje vai liderar amanhã. E quem não trabalhar esses pontos vai morrer. Não é novidade, é o evolucionismo em prática.

O engenheiro Ênio Padilha vai estar em Londrina no dia 6 de julho ministrando, no anfiteatro do CESA, às 16 horas, a palestra “Exercício Profissional e Sustentabilidade da Profissão”. Para confirmar a sua presença desde já CLIQUE AQUI.

Comentários, críticas e sugestões para esse post serão muito bem-vindas!


Ações

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11 responses

1 06 2009
Tiago

Gostaria de saber se o Enio Padilha começou um curso de engenharia e desistiu depois? Se a resposta for sim, ai está a motivação de seu texto!

1 06 2009
Vitor

“foi escrito pelo engenheiro Ênio Padilha ”
entao quer dizer q ele se formou na engenharia =)

Muito bom o texto. Pude ler todos os motivos q me fizeram abandonar o curso e ver q mesmo um profissional pensa assim.
Realmente motivaçao dos professores = 0, ou negativa, no caso do Al**, q parecia querer nos humilhar.
Ainda me pergunto como alguns professores jamais se interessaram em um feedback sobre o seu desempenho nas aulas.
Quando uma turma em q metade simplesmente abandona a matéria, assina a prova e entrega em branco, significa q algo está errado. Se fosse eu o professor, me sentiria um completo incompetente.

1 06 2009
Rui

Achei muito bom o texto, realmente a maioria desses tipos de dificuldades nós só sentimos quando realmente precisamos delas, como aprender a escrever bem, a se portar bem ou simplesmente conversar e expor suas idéias. Mas de todas as dificuldades que enfrentamos no curso, que não são poucas, a ou as mais frustrantes em relação aos meus amigos que fazem outros curso é a falta de exemplos de profissionais bem sucessidos dentro do curso, e que esses profissionais sejam acessiveis em algo que poderia virar uma camaradagem ou até amizade essencial a todos que se formam, alguém para podermos admirar e nos espelhar. Acho que por isso os meios de “fuga” do curso como empresa jr, estágio, CAEL ou até mesmo largar o curso, a primeira vista (tirando uns poucos que se realizam dentro da elétrica) parece o único meio de uma realização profissional.

1 06 2009
Belloni


Não acrescento mais nada ao texto.

É a tradução de boa parte da minha vida neste curso!

1 06 2009
Hacker X

[Esse comentário foi moderado por ser de anônimo!]

2 06 2009
Flavio

A princípio pensei que o autor do texto foi alguém que cursou ou cursa a mesma faculdade que eu. A descrição é a mesma como eu enxergava a minha universidade. Porém, ao perceber que se tratava de alguém “de fora” vejo que não há muita (ou quase nenhuma) diferença entre os cursos de engenharia pelo país. Muito bom o texto.

4 06 2009
Érika

Eu também me perguntei se o texto foi escrito por alguém da minha universidade. Me identifiquei com cada uma das passagens do texto e sei que é triste pensar assim, mas se eu pudesse prever que a engenharia traria com ela todo este pacote, citado no texto do Padilha, certamente não teria escolhido este curso.
Sei que ainda existem ferramentas estimulantes, como Empresa Jr, uma espécie quase extinta de professores que demonstram interesse nos alunos e alunos engajados. São essas ferramentas que me ajudam a querer melhorar.
Não podemos continuar de braços cruzados fingindo que os problemas não existem e pensar que no dia da formatura que eles acabarão. Eles vão continuar com a gente enquanto carregarmos os certificados onde estarão escritos o nome do curso e da instituição (vinculada a sua própria qualidade).
Certo dia, em uma assembléia, uma pessoa perguntou, com um ar de deboche, para um tal de Mateus se ele estava querendo mudar o mundo. A resposta foi um louvável SIM. Eu não esperava nada menos do que isso porque eu sei que também posso mudar e talvez esteja começando agora, deixando este comentário e cumprindo com o objetivo do texto que é “que as pessoas, a quem o texto é dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude tenha como objetivo dar UM FUTURO MELHOR PARA A ENGENHARIA NO BRASIL.”

5 06 2009
BELLONI

Erika….. eu também estive presente neste dia…..

Nunca um SIM foi tão sincero e com tanta fundamentação…..

Infelizmente não são muitos os que defendem esta idéia.
Formadores de opinião existem, muitos, mas líderes são raros.
Espero que este SIM seja aquela estaca fincada ao pé da montanha, aquela que marca o inicio da escalada.

Mesmo sabendo que a faculdade de engenharia deve sofrer mudanças, acho que nelas são forjadas algumas caracteristicas de um profissional que o mercado precisa. Infelizmente estes cursos não formam engenheiros (em sua maioria), formam profissonais flexiveis que se adaptam com facilidade em diversar areas. Agora se o pais precisa de engenheiros, a base profissional, que é o aprendizado, deve sofrer mudanças, muitas delas descritas neste belo texto acima.

12 06 2009
Nelson

Por tudo o que li, ouvi e vivi, só criticar nunca melhorou a vida de ninguém. Eu espero, assim, que a palestra do Ênio não seja apenas para expor de forma bonita as críticas ao sistema público de ensino que todos nós já sabemos, muito bem por sinal.

Uma amiga me contou de uma história muito interessante sobre comportamentos herdados. Foi feita uma pesquisa com 4 macacos. Uma banana foi colocada em um lugar de alcance relativamente fácil para qualquer macaco. No entanto, toda vez que um macaco tentava pegá-la, os outros 3 levavam choque. Passado um tempo, toda vez que um macaco tentava pegar a banana, os outros 3 o espancavam. Então, trocaram 1 macaco velho por 1 macaco novo, que não conhecia as regras. O macaco novo, ao tentar pegar a banana, era, naturalmente, espancado. Então trocaram outro macaco velho. No final, havia 4 macacos novos que nunca tinham levado um choque sequer se espancando toda vez que um deles tentava pegar a banana.

Eu acredito que alguns professores se comportam como macacos velhos, e alguns jovens professores vão decidir se tornar como eles. Os professores, por terem sofrido muito na época de sua graduação, acabam achando que esse é o comportamento padrão: “ferrar com os alunos – esses folgados!”, e perpetuam-no, ao invés de pensarem “não precisa ser assim”. Professores universitários, por sinal, têm, na minha opinião, uma posição muito confortável. Em qual outra profissão o cargo de chefia é rotativo para que todos possam ganhar o adicional? O professor que quer realmente realizar algo tem todas condições para fazê-lo na universidade: verbas, bolsas, bases de dados, contatos. Curiosamente, o professor que não quiser fazer nada também vai encontrar na mesma universidade todas as condições para isso.

Vou colocar também uma outra história que li no livro do Stephen Covey. Em uma universidade, no início do ano, um software classificava os alunos como bons ou ruins. Em uma turma eram colocados somente os classificados como bons, e em outra somentes os classificados como ruins. Um pesquisador inseriu um erro proposital no software de modo a classificar os alunos ruins como bons e os bons como ruins e ver o que acontecia. No final do semestre, os alunos classificados como ruins tinham apresentado rendimento melhor do que os alunos classificados como bons. Então perguntaram aos professores, “como foi o semestre?” Eles responderam “No início foi terrível. A turma não estava indo bem, mas quando olhávamos o software víamos que eles eram os alunos bons. Então acreditamos que havia algum erro no nosso método e fizemos algumas alterações até que eles obtiveram resultados melhroes”. Sim, é possível! (“Yes We Can!”)

No entanto, a boa vontade dos professores não é algo que está ao nosso alcance, não é algo que nós podemos controlar, embora possamos influenciar e tentar. É difícil, eu já tentei e do jeito que eu fiz não funcionou e acabou gerando apenas desgaste em um arrependimento de minha parte, mas não digo que é impossível. Se a palestra for apenas para criticar os professores, então esse encontro, a meu ver, vai acabar sendo apenas um fórum de desabafo, em que vamos apenas ganhar 1 minuto de conforto quando expormos nossos sofrimentos, e então voltaremos ao mesmo sofrimento dia após dia ao sairmos de lá.

Portanto, eu acredito que a melhor saída á atuarmos dentro do nosso círculo de influência, dentro daquilo que podemos controlar, e gradualmente aumentar nosso círculo. Algumas saídas, na minha opinião, são:

1) Criar um profundo respeito pelo processo de aprendizado e encontrar o que funciona para você
Todos nós somos diferentes, e é aí que está a beleza do mundo. Cada um aprende de um jeito, escrevendo, lendo, falando, repetindo. Além disso, há diversas formas diferentes de explicar e ouvir algo. E há uma grande diferença entre estudar e aprender. O que eu percebo nas pessoas que vão bem no curso é que elas não se importam tanto em estudar, mas se importam em aprender. E quando não entedem algo, isso vira um desafio e elas ficam loucas para tentar resolver – vão ver nos livros, perguntam para os amigos e perguntam, sim, para o professor, que quando está com tempo tenta explicar ou indica alguma referência. Mas se alguém chegar lá e dizer “professor, me explica tudo que eu não sei nada”, vai deixar a impressão de folgado, mesmo que não seja, o que cria repulsa do professor. É natural, ele foi condicionado assim.

2) Criar um respeito sincero pelo professor e compreender realmente quais são suas necessidades, inclusive pessoais
Embora alguns professores digam que nós aprendemos sozinhos, estudando em casa, eles podem ser de grande ajuda. E muitas vezes um comportamento agressivo vem de uma falta de atenção (quem tem namorada deve saber isso). Não importa se o professor é bom ou ruim, legal ou carrasco, nós não podemos mudá-lo da água para o vinho, do dia para a noite. Mas podemos escolher como reagimos ao comportamento dele. Podemos responder com agressividade e realimentar o processo, ou podemos tentar compreender e reverter o processo. Segundo Covey, compreender suas idéias e explicações explicando-as melhor do que eles. No CEFET de Cornélio nós tínhamos um professor meio mala, de quem poucos gostavam. No ano seguinte, minha irmã e as amigas delas, uma vez, por brincadeira e por aventura, deram um bolo de aniversário pra ele e cantaram parabéns na sala dele. Ele disse “nossa, nunca ninguém fez isso pra mim”. No dia seguinte ele levou uma bandeja de brigadeiros na sala. Isso é história real. Como vocês acham que ficou o relacionamento entre professor e turma depois disso?

3) Estabelecer contatos, como alunos, com entidades fora da Universidade, expandir nosso universo de atuação
Os professores têm dificuldade de estabelecer contato com o mercado, não é falta de vontade, é uma dificuldade mesmo. Há diferenças no estilo de comunicação, ao que dar valor ou ou não, no processo de desenvolvimento. Sabe quem conseguiria entender os dois? Nós. Imaginem que pesquisas poderiam ser feitas no DEEL, imaginem quantos estágios poderiam ser feitos, quantas coisas poderiam ser feitas simultaneamente e em conjunto, quantos produtos seriam desenvolvidos no DEEL se houvesse uma relação mais próxima com entidades fora da Universidade. E esse vínculo não depende só da boa vontade de professores. Nós, como alunos, amigos, filhos, primos, sobrinhos, Empresa Júnior e Centro Acadêmico podemos ajudar.

4) União, colaboração e benefício comum
Ajudem-se. Na Unicamp, quando um professor é uma droga, os alunos se juntam, estudam por si, ensinam uns aos outros e todo mundo sai feliz – e o melhor, autoconfiantes. Se o professor é realmente ruim, e não consegue melhorar, podemos negociar uma aula tira-dúvida e encarar a realidade, há muitas opções, quando estamos unidos e voltados para o benefício comum.

5) O que você quer para a sua vida?
Como você quer ser lembrado? Que realizações, conquistas você quer? Que contribuições você quer deixar para o mundo? Quais são seus valores? Como você quer estar daqui 15 anos? Nosso curso é um curso técnico. Se você quer ser empresário, você tem que fazer a parte técnica e fazer a mais – cursos, empresa júnior -, se você quer ser pesquisador, você tem que fazer a mais – iniciação científica, mestrado. O importante é dar o seu melhor naquilo que você escolher. Não existe profissão de sucesso, existe profissional de sucesso. Mas se você quer ser advogado, não importa quão bem você se dê na Engenharia, você vai ter que fazer Direito – no bom sentido.

Fico aberto a quaisquer questionamentos. Mandem por email, postem aqui, sei lá. Discutindo nós chegamos a idéias melhores.

Um abraço e sucesso a todos.

Nelson

12 06 2009
Mateus

Nelson, excelente comentário!! Vejo que você também ficou fã dos 7 hábitos! Ehehehe!
Obrigado!!
Esse tipo de participação é o objetivo desse blog!

A palestra do Ênio não será sobre esse texto e sobre os problemas no ensino da Engenharia. Ele abordará o exercício da profissão, os problemas mais comuns no exercício profissional, a importância da Engenharia para a sustentabilidade da sociedade brasileira, etc. Claro que algumas coisas poderão estar relacionadas aos problemas descritos acima, mas este não será o foco.

Nesse final de semana escrevo sobre as suas sugestões (gostei bastante!)!

Abraços!!

E parabéns pelo blog!

5 02 2010
Elaine

texto espetacular, vou indicar para meu filho que vai cursar engenharia, lê-lo, afinal e de mentes pensantes e competentes que o mundo precisa, e se faz necessário nos mexermos para que os professores sejam mais Humanos e motivadores do BEM. Gostei, esse PENSA!

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